Associação dos Comerciantes do Porto

Tarifas dos EUA e a Geopolítica do Dólar

Tarifas, dólar e o paradoxo americano e uma reflexão necessária para Portugal

Por Rubens Carvalho
Presidente da Direção da Associação dos Comerciantes do Porto

O recente anúncio por parte dos Estados Unidos da imposição de novas tarifas aduaneiras (25% sobre aço, alumínio e setor automóvel, e uma tarifa universal de 20% sobre produtos da União Europeia) constitui mais do que um gesto protecionista, é um sinal claro de reposicionamento estratégico da maior economia mundial.

O que está em causa não é apenas o comércio internacional. Está em causa o próprio equilíbrio do sistema monetário global. Desde Bretton Woods que o dólar americano ocupa o centro das transações internacionais. Para que isso seja possível, é necessário que os EUA mantenham, de forma estruturada, um défice comercial com a maioria dos países do mundo, é essa diferença que permite aos parceiros comerciais acumular dólares e participar nas trocas internacionais.

Quando os EUA restringem importações com tarifas elevadas, estão, paradoxalmente, a limitar a circulação do próprio dólar. E ao fazê-lo, minam o seu papel como moeda de reserva e unidade de referência internacional.

O défice comercial norte-americano não é uma falha do sistema mas sim uma funcionalidade da sua hegemonia monetária. Esta lógica é muitas vezes ignorada nas análises de curto prazo, centradas na balança comercial. Mas ela é essencial para entender os riscos da atual orientação da política externa económica norte-americana.

Consequências para Portugal

Portugal é um país pequeno, aberto ao mundo e fortemente integrado nas cadeias de valor europeias. As tarifas dos EUA impactam diretamente o nosso setor automóvel, os têxteis, os produtos alimentares e o design. Mas o efeito é mais profundo: qualquer distorção no sistema de trocas internacionais repercute-se em micro e pequenas empresas com aspirações exportadoras.

Além disso, o fortalecimento do dólar, impulsionado por políticas restritivas, encarece importações para os comerciantes portugueses e pode criar volatilidade cambial nos contratos internacionais.

Como reagir

Portugal deve reagir com visão estratégica. A nível nacional, importa:

  • Promover mecanismos de compensação às empresas exportadoras afetadas;
  • Incentivar a diversificação de mercados fora do eixo EUA-UE;
  • Apoiar a utilização de moedas alternativas quando viável, nomeadamente em acordos bilaterais com parceiros africanos e da América Latina.

 

A nível local, defendemos a criação de um Observatório Municipal do Comércio Internacional, que reúna informação, análise e apoio prático para os comerciantes da cidade.

É também urgente reforçar a literacia financeira e comercial internacional no seio das nossas micro-empresas, para que estejam preparadas para um mundo cada vez mais multipolar e monetariamente instável.

O Porto, como cidade virada para o mundo, não pode depender apenas da conjuntura, tem de construir resiliência e influência. E isso faz-se com estratégia, rede e inteligência coletiva.